Capítulo 4

O Surgimento das Primeiras Religiões Afro-Brasileiras Organizadas

Da prática dispersa ao terreiro como espaço de resistência e comunidade

Com o fim gradual do período colonial e o avanço do século XIX, o Brasil passou a vivenciar transformações sociais profundas. A urbanização crescente, o enfraquecimento de algumas estruturas coloniais e a reorganização das populações negras libertas criaram um novo cenário religioso. As práticas espirituais que antes circulavam de forma dispersa, doméstica ou clandestina começaram a se estruturar em espaços mais definidos.

Este capítulo aborda o surgimento das primeiras religiões afro-brasileiras organizadas no Brasil e como elas estabeleceram as bases institucionais, simbólicas e comunitárias que mais tarde influenciariam diretamente a formação da Umbanda.

Da prática doméstica ao espaço coletivo

Durante grande parte do período colonial, as manifestações espirituais africanas e afro-indígenas ocorreram de maneira fragmentada: em senzalas, quintais, matas ou reuniões restritas. Com o passar do tempo, especialmente após a abolição gradual da escravidão, tornou-se possível a criação de espaços coletivos dedicados à prática religiosa.

Esses espaços passaram a cumprir múltiplas funções: preservação cultural, organização comunitária, acolhimento espiritual e transmissão de saberes ancestrais.

O terreiro surge, nesse contexto, não apenas como local de culto, mas como centro social e espiritual das comunidades negras e marginalizadas.

A consolidação do Candomblé

Entre as religiões afro-brasileiras que se estruturaram no século XIX, o Candomblé ocupa posição central. Ele se organizou principalmente a partir de tradições africanas trazidas por povos de origem iorubá, jeje e bantu, entre outros.

O Candomblé estabeleceu hierarquia sacerdotal definida, rituais iniciáticos estruturados, culto aos Orixás conforme mitologias específicas e transmissão oral rigorosa do conhecimento.

Essa organização permitiu a preservação relativamente fiel de elementos africanos, mesmo em território brasileiro. Ao mesmo tempo, o Candomblé passou a conviver com outras expressões religiosas populares, criando diálogos e tensões.

É importante destacar que o Candomblé não buscava universalização nem conversão. Sua prática era voltada à comunidade e à continuidade da tradição.

Outras expressões afro-brasileiras emergentes

Além do Candomblé, outras formas religiosas começaram a se estruturar em diferentes regiões do país, cada uma refletindo contextos locais e influências específicas.

Entre elas, destacam-se o Batuque, especialmente no sul do Brasil; o Tambor de Mina, no Maranhão; o Xangô do Nordeste; e os cultos de Cabula e práticas afro-indígenas no Sudeste.

Essas tradições apresentavam variações significativas entre si, mas compartilhavam elementos comuns, como o culto às entidades espirituais, o uso ritual da música, da dança e das ervas, além da centralidade da ancestralidade.

Essas religiões não surgiram de um plano unificado, mas como respostas locais às necessidades espirituais das comunidades em que se desenvolveram.

Relação com o catolicismo e a sociedade

Mesmo organizadas, as religiões afro-brasileiras continuaram enfrentando perseguições legais e sociais. A criminalização de práticas religiosas consideradas "feitiçaria" persistiu até o início do século XX.

Como estratégia de sobrevivência, muitos terreiros adotaram símbolos católicos externamente, realizavam cultos discretos e integraram rezas e santos ao discurso público.

Esse movimento não significava abandono das crenças africanas, mas adaptação ao contexto repressivo.

Ao mesmo tempo, essas religiões começaram a atrair pessoas de diferentes origens sociais, incluindo brancos e membros da classe média urbana, ampliando gradualmente seu alcance.

Continuidade histórica

O surgimento das religiões afro-brasileiras organizadas marcou um ponto de inflexão na história espiritual do Brasil. Pela primeira vez, práticas antes dispersas ganharam estrutura, liderança e continuidade institucional. Esse processo não levou diretamente à Umbanda, mas criou um terreno fértil onde diferentes visões espirituais passaram a coexistir, dialogar e, em alguns casos, se transformar. No próximo capítulo, exploraremos como o espiritismo kardecista chegou ao Brasil e passou a influenciar profundamente o pensamento religioso urbano, contribuindo para a formação de uma nova síntese espiritual no início do século XX.