Capítulo 6

O Brasil do Século XIX: Escravidão, Cultura Negra e Resistência Religiosa

A reorganização da religiosidade africana como forma de resistência, preservação identitária e sobrevivência espiritual

Para compreender o surgimento da Umbanda no início do século XX, é indispensável analisar o contexto social, político e cultural do Brasil no século XIX. Esse período foi marcado pela manutenção da escravidão, pela formação de uma sociedade profundamente desigual e por intensos processos de repressão cultural e religiosa direcionados às populações negras e afrodescendentes.

A religiosidade africana, longe de desaparecer sob a violência do sistema escravocrata, reorganizou-se como forma de resistência, preservação identitária e sobrevivência espiritual. É nesse ambiente de tensão e adaptação que se consolidam as bases culturais que mais tarde influenciariam diretamente a Umbanda.

A escravidão como estrutura social e cultural

Durante o século XIX, o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir oficialmente a escravidão, em 1888. Milhões de africanos e seus descendentes viveram sob um regime que não apenas explorava sua força de trabalho, mas também tentava suprimir suas línguas, crenças, organizações sociais e práticas espirituais.

A escravidão no Brasil não foi apenas um sistema econômico, mas uma estrutura que moldou profundamente as relações sociais, o pensamento religioso e as formas de controle cultural. A repressão às manifestações religiosas africanas fazia parte de um projeto mais amplo de dominação, que associava essas práticas à marginalidade, ao crime ou à superstição.

A repressão religiosa e a criminalização do sagrado africano

As religiões de origem africana foram alvo constante de perseguição por parte do Estado, da Igreja e das elites urbanas. Práticas religiosas realizadas fora do catolicismo oficial eram frequentemente classificadas como feitiçaria, curandeirismo ou charlatanismo.

Códigos legais, especialmente no final do século XIX e início do século XX, criminalizavam reuniões religiosas negras, uso de instrumentos, cantos e rituais. Esse cenário forçou tais práticas a se adaptarem, ocultarem ou se reorganizarem de forma menos visível, muitas vezes incorporando elementos do catolicismo popular para garantir sua continuidade.

A formação dos espaços de resistência cultural

Mesmo sob repressão, a religiosidade afro-brasileira encontrou meios de sobrevivência. Quilombos, irmandades religiosas, festas populares, confrarias e encontros domésticos tornaram-se espaços de preservação cultural e espiritual.

Nesses ambientes, elementos africanos foram transmitidos oralmente, reinterpretados e combinados com referências cristãs, indígenas e locais. A espiritualidade deixou de ser apenas prática religiosa e passou a funcionar também como instrumento de resistência simbólica, fortalecimento comunitário e reconstrução de identidade.

O papel da oralidade e da adaptação

A ausência de registros escritos formais não indica fragilidade, mas revela a centralidade da oralidade como meio de transmissão do conhecimento religioso. Cantos, mitos, narrativas e ensinamentos eram preservados por meio da memória coletiva, adaptando-se às circunstâncias e aos diferentes contextos regionais do Brasil.

Essa flexibilidade foi fundamental para que tradições africanas não apenas sobrevivessem, mas se transformassem, dando origem a novas expressões religiosas ao longo do tempo. A religiosidade afro-brasileira passou a refletir a experiência histórica concreta de seus praticantes no Brasil.

Continuidade histórica

O século XIX consolidou um cenário em que cultura, resistência e espiritualidade caminharam juntas. A repressão não eliminou as tradições religiosas africanas, mas contribuiu para sua reorganização e ressignificação em solo brasileiro. No próximo capítulo, avançaremos para a transição entre o fim da escravidão e o início da República, analisando como as mudanças sociais, urbanas e políticas do final do século XIX criaram o ambiente propício para o surgimento de novas formas religiosas — entre elas, a Umbanda.